Tudo corria bem no trabalho. Era um ambiente agradável e eu conseguira conquistar a confiança de meus colegas. Como novo gerente da área de pesquisas, eu ainda estava um pouco desconfortável, mas tantos anos de estudos em excelentes instituições deram-me base suficiente para lidar com essa nova etapa em minha carreira. Estava há pouco tempo no posto de gerente, mas precisava me atualizar. A empresa me mandaria em um breve curso nos Estados Unidos. Passaria uma semana fora. Minha esposa não hesitou muito em concordar com a viagem, embora preocupada em ficar sozinha com nosso pequeno filho de 3 anos.
Nosso filho... quão gracioso era ele. Nós éramos muito apegados. Talvez ele sentisse minha falta durante esse curto período de tempo. Talvez ele sentisse saudades. Como explicar essa viagem para ele? Entretanto, as crianças nos surpreendem mais do que imaginamos.
- Filho, o papai vai viajar sozinho, vou ficar longe por alguns dias.
-Você vai pra muito longe papai? – indagou meu filho, seus olhos estavam mais atentos no avião de brinquedo em sua mão do que em mim.
-É sim, muito, muito longe.
- Você vai de avião? – disse ele balançando seu brinquedo e imitando um som semelhante a uma aeronave cruzando o céu.
-Vou sim. Pra onde eu vou tem muitas coisas legais, o que você quer que o papai compre de presente pra você? – perguntei passando a mão em seus cabelos encaracolados.
-Papai, sabe o que eu quero... você vai de avião, né? Pega um pedacinho de uma nuvem e traz pra mim? – seus olhos até brilhavam enquanto falava – você põe o pedaço numa caixinha... aí você dá pra mim.
Neste momento, retornei à minha adolescência. Eu acompanhava minha avó pelas ruas de uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, onde ela e minha mãe haviam nascido. Era uma tarde bem amena. O sol começara a se esconder entre nuvens, deixando-as com uma leve cor dourada.
Rompendo o silêncio, minha avó disse:
- Do que que as nuvens são feitas? É um grande mistério de Deus. Elas ficam lá em cima, quietinhas, e quando Deus quer, elas chovem.
Eu nada respondi. Minha avó tinha pouquíssimo estudo e eu, cursando a oitava série na época, estava cansado de rever o ciclo da água. Não quis desfazer a sua ignorância, explicando-lhe o que eu sabia.
Quando meu filhinho pediu o pedaço de nuvem fiquei feliz em nunca ter revelado a ciência que conhecia à minha avó. Ela era muito mais feliz encantando-se com tão pequeninas coisas. Percebi então, que os quase 25 anos de estudo, tornaram minha vida um simples sistema termodinâmico. Meus sentimentos se resumiam em bioquímica de hormônios. Minha existência nada mais era do que uma dúzia de equações. E as nuvens... as nuvens não me encantavam. Quase nada me encantava.
Não queria desiludir a serena criança que me fitava com os olhinhos encolhidos, como se fizessem manha para eu conceder seu cobiçado presente. Então respondi:
- Filhinho, não posso roubar um pedaço de nuvem por que os anjinhos brincam nelas.
- Papai, se você ver um anjo da janela do avião, pede pra ele proteger você e a mamãe. – disse ele calmamente, seu sorriso era encantador.
Ao ouvir isso, escorreu pelo meu rosto uma lágrima. Depois escorreu outra. E outra e mais outra. Logo, depois de tantos anos com a face seca, meus olhos choviam e eu sorria.


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